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Moradores do Jardim Catarina sofrem com racismo ambiental e ciclo de enchentes

Segundo especialista, a falta de investimentos mantém a periferia invisibilizada e aprofunda as desigualdades socioambientais

Atualizado em 02/02/2026 às 16:02, por .

Foto atual de uma família no portão de casa na região da Ipuca. Uma família composta por três pessoas negras — uma jovem, uma senhora e um homem — posa à frente de uma construção com porta metálica azul em uma rua de terra. Ao lado, há um poste de concreto com lixeira, vegetação rasteira, árvores e casas de tijolos ao fundo.

Lucia Cristina, de 59 anos moradora da região Ipuca, no Jardim Catarina, precisou recomeçar do zero com o marido e os dois filhos depois das chuvas de 2013, que inundaram sua casa | Foto: Olho Vivo JC/BEMTV

Por Emanuelly Cristina, Nicole da Silva, Thomas dos Santos, Angela Soares e Paula Vitória 

Edição 5 - Jornal Impresso O Catarinão 

Há um ano, o jornal O Catarinão publicou a reportagem “Todo verão é um risco”, assinada pela cientista ambiental e cria do Jardim Catarina, Marcyllene Maria. O texto expôs a realidade de um bairro que, mesmo após sucessivas enchentes, segue sem receber solução do poder público. As consequências atingem com mais força regiões como Ipuca, Pica-Pau, Baixada e Guaxa, onde cada período de chuva representa novas perdas e insegurança para os moradores. 

Uma moradora, que não quis se identificar, relatou ter perdido todos os seus pertences durante um desses episódios de alagamento. Ressaltou ainda que a água que invadiu sua casa permaneceu acumulada na altura das pernas por mais de uma semana.

Para se abrigar, ela e sua família subiram para o terraço de casa, levando apenas fogão e geladeira. No local, que era aberto, improvisaram uma proteção com lençóis ao redor e ali permaneceram por mais de uma semana, enfrentando chuva e frio, enquanto aguardavam a água baixar.

Outra pessoa que sabe o que é sentir medo da chuva, é a diarista Lucia Cristina, de 59 anos. Moradora da região Ipuca, no Jardim Catarina, ela precisou recomeçar do zero com o marido e os dois filhos depois das chuvas de 2013, que inundaram sua casa. 

“Começou a encher d'água e entrou água na minha casa. A água subia pelo vaso sanitário, pelas paredes e meus filhos estavam pequenos e ali nós ficamos em desespero. Os vizinhos vieram ajudar e eles foram para casa do meu irmão. Eu e meu esposo subimos rápido para a escada e ficamos ali…. passamos a madrugada toda sentados na escada”, relembra a diarista.

De 2013 para 2025 já se passaram 12 anos. O Jardim Catarina passou por situações de alagamento grave em quase todos os anos seguintes e a família de dona Lúcia seguiu sofrendo os impactos. Ela intitula a de 2013 como a pior, por viver isso com os filhos ainda pequenos. 

Nós ficamos preocupados quando chove muito porque lembramos o que passamos nas primeiras e nas outras enchentes. Então causou um certo trauma

relembra Lúcia, que chegou a receber alimentos lançados pela vizinhança enquanto ela e o marido se abrigavam na escada.

Para não continuarem vivendo episódios como esse, a solução criada pela família, foi abandonar e aterrar a antiga casa para erguer outra por cima. Só assim conseguiram reconstruir seus pertences com a segurança de não perder tudo novamente no ano seguinte.

A chuva é a mesma - o impacto, não

Em entrevista para O Catarinão, Naira Santa Rita Wayand, especialista em Sustentabilidade e Ação Climática, fundadora do Movimento ESG Antirracista e do Instituto DuClima, destacou a existência do racismo ambiental* como um dos fatores centrais do problema e apontou a necessidade de políticas públicas mais focadas nas periferias. 

Segundo ela, essa ausência de investimentos agrava o impacto das enchentes, criando um ciclo de vulnerabilidade e abandono. Naira afirmou que, enquanto as áreas mais privilegiadas recebem atenção, a periferia continua invisibilizada, aprofundando as desigualdades socioambientais.

As histórias das moradoras revelam que, enquanto o Jardim Catarina segue sem mudanças estruturais, moradores continuam recorrendo a soluções próprias para enfrentar as chuvas. Para a especialista, sem investimento público contínuo e políticas que considerem as desigualdades socioambientais, a cada novo verão as mesmas famílias seguem expostas aos mesmos riscos e obrigadas a recomeçar ou reinventar novas estratégias sempre prevendo novos alagamentos. 

A Prefeitura de São Gonçalo foi questionada sobre a existência de algum plano de ação contínuo com objetivo de prevenção em casos de fortes chuvas.  Segundo eles, equipes atuam no bairro desde julho deste ano, ressaltando que o Rio Alcântara foi “completamente limpo e desassoreado" com pontos com vários metros de largura para passagem de água. 

QUE NOMES SÃO ESSES? 

"Que nomes são esses?” É um espaço no jornal O Catarinão dedicado a explicar termos, palavras ou nomes que possam parecer estranhos e/ou desconhecidos citados em alguma matéria. Assim, além de você ficar por dentro do assunto tendo mais conhecimento, você também adiciona novas palavras no seu vocabulário.

Racismo ambiental* 
É a maneira desigual e discriminatória com que grupos sociais minoritários e vulnerabilizados (especialmente pessoas negras, indígenas e de baixa renda) são afetados pelos danos ambientais. Isso ocorre quando o poder público ou empresas colocam indústrias poluentes ou não investem em saneamento e moradia digna justamente nas periferias e comunidades tradicionais.