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'Vou me conformar em passar a vida inteira na Ipuca com o pé na lama?’, desabafa morador

Mobilização de moradores do Jardim Catarina Velho marca um novo momento na luta por direitos na região da Ipuca

Atualizado em 27/03/2026 às 22:03, por Isabelly Damasceno.

A imagem mostra uma rua de terra estreita e precária. Da esquerda para a direita, veem-se muros de alvenaria, vegetação rasteira e grandes poças de água barrenta que ocupam quase toda a largura da via. O solo apresenta sulcos profundos de lama e o reflexo de postes de energia é visível na água parada.

Mesmo em dias ensolarados, ruas da Ipuca, como a Rua Soares dos Reis, continuam com lama e poças d'água.

No último sábado (21), moradores da Ipuca, sub-região localizada no Jardim Catarina Velho, se reuniram na praça para demandar direitos como: saneamento básico, asfalto nas ruas e uma maior transparência do governo com a verba pública.

A mobilização marca um novo momento na luta pelos direitos dos moradores da região, que agora se organizam de forma recorrente para discutir soluções para o território e traçar estratégias de incidência política: “O fato de vocês estarem aqui, o fato de eu tá aqui, isso mostra que aquilo que tava adormecido dentro de mim, aflorou. Por quê? Porque cada um [morador] motivou um”, explica um dos organizadores da atividade.

Um dos organizadores, morador da Ipuca há cerca de vinte anos, continua: “O protesto aqui não é de uma pessoa. O protesto aqui é de toda uma comunidade que vem sofrendo há anos. O protesto aqui é de um povo que tá clamando apenas por algo simples: dignidade. Eu sou um cidadão que tô clamando pelo meu direito”.

Moradores pretendem se reunir com frequência para debater direitos e cobrar melhorias para região. | Foto: Eduardo Navarro/O Catarinão

Uma preocupação recorrente dos moradores é o enfrentamento de mais um ano eleitoral. Neste ano de 2026, precisaremos decidir quem irá ocupar os próximos quatro anos da presidência da República, e mais: um novo governador para o estado do Rio de Janeiro, senadores, deputados federais e deputados estaduais. Os meses que antecedem as eleições são sempre preocupantes porque é comum que figuras políticas estejam mais presentes no território na tentativa de comprar votos e traçar promessas que jamais foram cumpridas. “Quando chegar a época de eleição, procura votar correto, procura valorizar o voto, porque a democracia é o maior poder que vocês têm na mão”, alertou um dos participantes da mobilização.

Por isso, os organizadores da atividade fazem questão de reforçar que as mobilizações por uma Nova Ipuca estão sendo organizadas e executadas pelos moradores e para os moradores, sem a atuação ou interferência de nenhum político.

“Os moradores estão cansados desse abandono, desse descaso. Essa mobilização parte mesmo dos próprios moradores, com a insatisfação que a gente está vivendo. A gente precisa ser ouvido, precisa ser visto. A gente está mesmo esquecido aqui, esquecido”, explica uma das organizadoras da atividade.

 

Moradores cobram mais transparência com verba do programa Nova Ipuca, projeto da Prefeitura de São Gonçalo, através da Secretaria de Gestão Integrada e Projetos Especiais, desenvolvido e selecionado para receber recursos federais do programa Periferia Viva, parte das ações do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). | Foto: Eduardo Navarro/O Catarinão

A vida inteira com o pé na lama

Eu vou me conformar em passar a vida inteira na Ipuca com o pé na lama? Vou passar minha vida inteira na Ipuca sem água, sem saneamento básico, com a iluminação precária?

desabafa morador

A luta por ruas asfaltadas na Ipuca e em todo o Catarina Velho é antiga. Enquanto algumas regiões do bairro já possuem asfalto há mais de dez anos, como as ruas principais do Jardim Catarina Novo, os moradores da Ipuca sofrem enfrentando a lama, os buracos e as poças d’água em dias de chuva.

Provando que as crianças também precisam estar no centro das discussões e decisões políticas, uma moradora de apenas 11 anos ressalta: “A gente precisa endireitar a rua, endireitar a praça, endireitar vários lugares e botar postos de saúde, mais postos e escolas, que aí vai ficar mais fácil para a gente”. 

Crianças que vivem na região da Ipuca, conhecem as dificuldades de um território esquecido. | Foto: Eduardo Navarro/O Catarinão

A situação também é precária para os trabalhadores que atuam no território, como entregadores e mototáxis que, muitas vezes, têm seus veículos prejudicados pela falta de estrutura das ruas. Durante a mobilização, os moradores também apontaram o risco enfrentado por pessoas idosas e por pessoas com deficiência, que muitas vezes precisam se deslocar com a ajuda de cadeira de rodas.

Verba do Programa Periferia Viva pode trazer a tão sonhada urbanização

Segundo a Prefeitura de São Gonçalo, 85% dos investimentos previstos pelo programa Periferia Viva, do Governo Federal, já foram aprovados. O projeto foi elaborado pelo município, mas os recursos recebidos são do Governo Federal, através do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que também beneficiará outras favelas do estado do Rio de Janeiro, como a Rocinha e o Conjunto de Favelas da Maré, e prevê o investimento de R$1,3 trilhão de investimentos em todo o Brasil até o final deste ano.  

De acordo com o Ministério das Cidades, a Ipuca receberá R$152 milhões do Novo PAC, e beneficiará cerca de 9 mil moradores. Os investimentos serão voltados a obras de infraestrutura em 36 ruas da região, com pavimentação de asfalto e rede de drenagem, além da construção de uma nova creche, implementação de sistema de abastecimento de água e coleta de esgoto, revitalização e construção de praças, regularização fundiária e previsão de melhorias habitacionais para cerca de 200 residências.

As mais de três décadas de luta dos moradores por um projeto de urbanização digno revelam a urgência de quem, depois de tantas promessas, já não aguenta mais esperar. Ainda assim, o Novo PAC da Ipuca segue na fase de elaboração do Plano de Ação.

“A gente também não tem que pedir favor. É obrigação deles [políticos] fazerem pela gente, já era para ter sido feito. Essa verba já foi liberada. Por que não fizeram nada ainda?”, questiona a moradora.

No entanto, ao contrário do que muitos moradores acreditam, apesar de ter a maior parte dos recursos aprovados pelo Governo Federal, a verba ainda não foi liberada. A prefeitura alega que ainda depende das etapas burocráticas junto à Caixa Econômica Federal e ao Ministério das Cidades, mas não divulgou informações sobre prazos.

De morador para morador

O primeiro encontro dessa nova onda de mobilizações dos moradores da Ipuca em prol de uma vida digna no território pode ser o pontapé para resgatar a esperança. Durante as conversas, os moradores presentes no ato destacaram que o abandono público e a precarização da vida de quem mora nessa região do Catarina enfraquecem o orgulho de pertencer – e quando não há orgulho, há pouca motivação para lutar e esperar por dias melhores.

“Quando você olha nos olhos daquela pessoa, [...] aquela pessoa tá moída por dentro. Você pergunta se ela vê uma possibilidade de melhoria, ela não consegue enxergar essa possibilidade de melhoria. Por quê? Porque ela se sente esquecida, porque ela se sente abandonada, se sente excluída da sociedade. E você olha para ela e pergunta se ela tem uma motivação, ela não tem motivação.” Mobilizador da ação do dia 21/03/2026, na Praça da Ipuca.

Ao mesmo tempo, os moradores presentes expressaram que as novas movimentações que estão sendo realizadas são um ponto de esperança. Aqueles que estiveram presentes, manifestaram o desejo em seguir atuando na coletividade para demandar os direitos prometidos há tantos anos, mas que nunca chegaram – com destaque às obras de urbanização e saneamento básico.

As queixas são muitas, é verdade. A ausência do poder público é gritante e cabe em uma simples fotografia das ruas da Ipuca: lixos que não foram coletados, poças d’água denunciando a chuva que caiu há dias, e a própria lama, que é inevitável sem um asfalto de qualidade. O recado é claro: moradores da Ipuca não querem mais usar sacolas nos pés para chegarem limpos no trabalho, estão cansados de pagar por um abastecimento de água que pinga gotas na pia, e não querem mais ter que proteger suas casas dos alagamentos.

Rua Soares Reis, Ipuca, Jardim Catarina. | Foto: Reprodução redes sociais

Mesmo cansados, os moradores deixaram claro que não irão recuar, e novas mobilizações já estão sendo planejadas. A promessa de uma Nova Ipuca precisa ser cumprida pelos governos, e a prefeitura precisa se responsabilizar com a distribuição adequada de informações transparentes sobre o andamento do Novo PAC para a Ipuca. –

Você pode acompanhar as mobilizações no Instagram: @jardimcatarinasos

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