Segunda-feira, 11 de maio de 2026 MPJ | Mais Pelo Jornalismo
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Transporte precário rouba o tempo e a energia de trabalhadoras

Histórias de moradoras do Jardim Catarina retratam a desigualdade na mobilidade urbana de uma cidade que depende dos ônibus

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“Morando em São Gonçalo, você sabe como é”... lembrando a música “São Gonça”, de Seu Jorge, te convidamos a pensar: Quanto tempo uma pessoa leva para sair do Jardim Catarina e ir estudar, trabalhar ou resolver seus afazeres no “rodo” - como chamamos o centro de São Gonçalo - ou em cidades vizinhas?

De acordo com o Censo 2022, realizado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), São Gonçalo é a cidade do Brasil que, proporcionalmente, mais depende de ônibus como meio de transporte para o deslocamento. 

Na vida da babá Ana Inês, de 47 anos, essa dependência se reflete no cansaço ao final do dia. Para chegar ao trabalho em Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro, Ana precisa pegar dois ônibus: um para o Alcântara e outro para Botafogo. 

Moradora do Jardim Catarina, Ana leva cerca de duas horas e meia para chegar ao seu destino. Na volta para casa, por causa do pico de trânsito, esse tempo pode ser ainda maior. 

“Todo dia acordo de madrugada para pegar o ônibus, muitas vezes lotado, para enfrentar o trânsito. Às vezes, parece que passo mais tempo indo e voltando do que no trabalho. Fora o valor das passagens... É cansativo. No fim, quase não sobra tempo nem energia para descansar ou cuidar de mim. É só trabalhar, chegar cansada e começar tudo de novo no dia seguinte”, desabafa a babá.

Somando as horas de deslocamento entre uma cidade e outra, Ana gasta por dia quase o mesmo tempo que levaria para fazer uma viagem de ônibus até o estado de São Paulo, em média 6 horas.

A jovem aprendiz Manoella Liandro, de 17 anos, também fala do cansaço causado pelo deslocamento nos transportes públicos.

O cansaço do deslocamento me revolta, porque é um trajeto longo e na maioria das vezes eu estou em pé

conta a jovem que trabalha no bairro Zé Garoto.

Ao relembrar que a Região Metropolitana do Rio de Janeiro possui o maior tempo médio de deslocamento do país, Luize Sampaio, Coordenadora de Informação da Casa Fluminense, uma organização especialista em mobilidade urbana destaca:  “Com a criação de uma linha de metrô que fizesse esse trajeto, certamente deixaríamos de ser recordistas nesse índice. Sair desse ranking significaria mais qualidade de vida para essas pessoas.”

Passagem sobe, mas qualidade do transporte desce

Enquanto a chamada “Linha 3 do metrô” - que ligaria os municípios do Rio de Janeiro, Niterói e São Gonçalo - ainda é um sonho, a população vive o pesadelo de ver o transporte coletivo aumentar o valor das passagens.

No mês passado, o valor da passagem dos ônibus municipais que custava R$ 3,95 aumentou para R$5,55, um reajuste de 40%. A decisão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) autorizou o aumento após uma disputa na justiça entre a administração municipal e o consórcio de empresas responsável pelo transporte. As viações alegaram crise financeira e risco de colapso para justificar o aumento. 

Para quem utiliza o transporte nos 24 dias úteis do mês, pagando ida e volta, o gasto que era de R$189,60 mensal passou a ser de R$266,40.

O aumento, porém, não refletiu em melhorias no serviço prestado. “Mudei o turno da escola só pra não chegar atrasada no trabalho. Mas a lotação sempre está presente. O tempo para estudar e descansar também é menor por isso”, conta Manoella. 

Luize ressalta como o aumento também é prejudicial para o meio ambiente: “Diminui o número de passageiros e contribui para o maior uso de carros particulares que aumentam as emissões de gases poluentes. Então, se cria um ciclo vicioso para a crise climática. E sobre direitos: o transporte é o direito que dá acesso a outros direitos, né? Então, para você ter um sistema público que atenda a população, ela tem que conseguir acessar isso. E esse acesso passa por ter acesso ao transporte público de qualidade”.

Ana e Manoella, duas mulheres de gerações diferentes, mas com a mesma realidade. Mesmo sem se conhecerem, compartilham da mesma opinião: o trajeto - muitas vezes mais exaustivo que o próprio trabalho - reduz o tempo que têm para si mesmas, seja para estudar, ou para o lazer.

 

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