Em 2026, ainda há regiões do Jardim Catarina sem acesso à água encanada e ao tratamento de esgoto. O acesso à água potável e ao saneamento básico é um direito humano universal, reconhecido pela ONU (Organização das Nações Unidas) e garantido pela legislação brasileira. No entanto, esse direito não é plenamente assegurado a diversas famílias do território. Em áreas como a Ipuca, no qual não há rede de abastecimento, moradores recorrem a tecnologias populares para acessar água – práticas frequentemente estigmatizadas como “gambiarras” quando realizadas em favelas, mas tratadas como inovação quando adotadas fora delas. Ao mesmo tempo, outras regiões do Jardim Catarina, mesmo atendidas pela concessionária Águas do Rio, enfrentam episódios recorrentes de falta d’água.
Durante as festas de fim de ano, enquanto alguns comemoravam, outros se perguntavam o que iriam fazer nos próximos dias sem água.
Uma delas foi Jhullyelen Ferreira, 30 anos. Moradora do Jardim Catarina Velho, na altura da Rua 8, Jhullyelen conta que ficou a semana inteira do ano novo sem água. “Passei a virada sem água e só fui conseguir água no dia 3 de janeiro. Tive que pegar galões de água na casa do meu pai, tomar banho lá e até lavar roupas lá também.”
Outras vias do bairro, como a Rua Gonçalves Ledo (antiga Rua 19), a Rua Gil Polo (Rua 51), na Ipuca, a Avenida Águas Marinhas e a Rua Safira (31), no Jardim Catarina Novo, também enfrentaram a falta d’água por um período de pelo menos duas semanas entre final do ano e meados de janeiro.
“Aqui estamos tendo que pedir pipa d'água. Hoje, o condomínio aqui do lado pediu uma”, disse uma moradora da Rua Gonçalves Ledo, que preferiu não se identificar.
Outros relatos no Instagram do O Catarinão evidenciaram avenidas, como a Santa Catarina, na altura da Rua 21, Rua Marcos da Costa, na altura da 33, que também ficaram sem água nas duas primeiras semanas de janeiro.
Quando a falta d’água é uma escolha política
Não é um caso isolado. Segundo José Policarpo, morador do Jardim Catarina e presidente da Federação das Associações de Moradores de Bairros e Comunidades de São Gonçalo (FAMB-SG), a falta de água acontece em quase todo o território, sendo em partes do Jardim Catarina velho e partes do novo.
“Somos prejudicados pelos péssimos serviços de distribuição da alimentação da rede. É uma manobra que varia de 12 horas de fornecimento da água para parte do [Jardim Catarina] novo e mais 12 horas do fornecimento para a parte do velho. Quando chega nessas áreas, praticamente não tem água, pois não tem força o suficiente para atender a todos. Isso está acontecendo nos trechos entre a Rua Turquesas (rua 45 nova), Rua Aldeia de Mattos, (Trecho da BR) e toda a Ipuca.
Antônio dos Santos, de 77 anos, desde maio de 2025 não sabe o que é ter água em casa. Além do falecimento de sua esposa, que aconteceu em julho do último ano, a falta d’água o obrigou a sair de casa e viver com a filha, também moradora do território.
“Às vezes, o morador acha que chegou água, mas quando vai ver é esgoto. Aí tem que jogar fora e limpar a caixa. Quem tem água aqui é porque tem poço ou porque pede caminhão pipa. Tive que sair daqui porque sem água não dá pra viver”, conta.
A Rua Expedicionário Noraldino Rosa Santos, mais conhecida como Antiga 46, esquina com a 64, é uma região, que assim como a Ipuca, não tem rede de abastecimento de água regular. Segundo Antônio, a água que chegava ali até meados de 2025 fazia parte de um programa social para abastecimento de água ainda no governo Leonel Brizola (1983-1987 | 1991-1994).
Além de Governador do Rio de Janeiro, Brizola era engenheiro civil e verificou com facilidade que o Guandu – localizado junto às divisas de duas cidades do antigo Estado do Rio: Itaguaí e Nova Iguaçu – foi projetado e construído para abastecer os bairros mais pobres e a periferia do Rio e a Baixada Fluminense somente depois de abastecer os bairros considerados nobres, como os da Zona Sul e a Tijuca.
“Quando, no início de meu Governo, buscava juntamente com o então Secretário de Obras, o saudoso companheiro Bocayuva Cunha, soluções para levar água tratada para a Baixada e Zona Oeste, deparei-me com uma situação discriminatória na estrutura do sistema Guandu, que hoje relato pela primeira vez. A água só chegava aos níveis da adutora que se dirige à Baixada nos momentos de cheia do reservatório do sistema, que suporta um volume d’água de 75 milhões de litros. Assim mesmo, nos bairros daquelas regiões que já têm redes de distribuição, a água só chegava raramente e em pequenas quantidades.”Contou Brizola no Tijolaço, uma série de artigos assinados pelo governador na imprensa.
Foi quando o então governador Brizola inaugurou a ampliação do sistema de captação e da estação de tratamento de água do Guandu que permitiu o envio de mais de 600 milhões de litros de água tratada para dezenas de bairros mais vulnerabilizados da Baixada Fluminense e das Zonas Oeste e Leopoldina, do Rio de Janeiro. Mas, você deve estar se perguntando o que isso tem a ver com o Jardim Catarina, já que a Estação de Tratamento de Água (ETA) Guandu não é responsável por abastecer São Gonçalo e sim a ETA Imunana-Laranjal.
Ao mesmo tempo em que Brizola ampliava o sistema Guandu, também trabalhou para a ampliação, em 40%, do sistema Imunana–Laranjal, permitindo o fornecimento diário de quase 200 milhões de litros de água para os municípios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí, além da Ilha de Paquetá.
É nesse contexto que entram pessoas como Antônio, que, desde que construiu sua casa na região, sempre recebeu água dessa forma. Como o local não é atendido pela concessionária Águas do Rio, moradores como Antônio – mesmo cientes de que a responsabilidade pelo abastecimento é do Estado – acabam sem a quem recorrer ou cobrar providências.
Se a água passa por aqui, por que não chega aqui?
Uma outra informação que necessita atenção, já escrita no trecho acima: a ETA Imunana-Laranjal abastece a Ilha de Paquetá. Mas por quê? Já que a Ilha fica na cidade do Rio e deveria ser atendida pela ETA Guandu?
Apesar de a Ilha de Paquetá ter uma ligação logística e operacional mais direta com Niterói e São Gonçalo – por estar localizada no centro da Baía de Guanabara – o historiador e pesquisador do Jardim Catarina, Pitter Mendes, explica que a decisão de vinculá-la ao sistema Imunana-Laranjal foi política e os seus efeitos permanecem até hoje no território.
“O local de lazer preferido do presidente Getúlio Vargas era a Ilha de Paquetá, que, até então, não possuía água encanada. O que parecia impossível foi viabilizado pelo genro do presidente, o então governador Amaral Peixoto: a estação Imunana-Laranjal foi construída para fornecer água exclusivamente à Ilha de Paquetá”, relata.
Na prática, a construção da ETA Imunana-Laranjal atendeu a interesses pessoais e políticos da época, priorizando o abastecimento da ilha frequentada por Vargas – sogro de Amaral Peixoto e pai de Alzira Vargas – em detrimento de outras regiões que, até hoje, enfrentam dificuldades no acesso à água.
“O tubo que leva a água até a ilha atravessa todo o território do Jardim Catarina, podendo ser visto na divisa com o bairro Salgueiro, por cima do rio Alcântara. Nas décadas de 1970 e 1980, era conhecido como ‘cano furado’, já que as crianças costumavam perfurá-lo para tomar banho e brincar”, explica Pitter.
Cobrança por um serviço não prestado
Imagina você receber a cobrança de um mercado sem ter feito compras ou receber faturas e boletos de serviços que você nunca utilizou. É o que vive José Policarpo e outros moradores do Jardim Catarina que não possuem rede regular de abastecimento de água, mas passaram a receber cobrança da Águas do Rio.
A fatura enviada pela Águas do Rio registra uma cobrança de R$2.493,61 em “atraso” e traz, inclusive, aviso de corte previsto para abril, apesar de o serviço não ser prestado ao morador. O campo destinado à identificação do hidrômetro aparece em branco, e, em “especificações do faturamento”, onde deveriam constar os valores referentes ao consumo de água e esgoto, há apenas a indicação de um débito superior a R$2 mil, referente ao ano passado.

Questionamos a empresa qual é o critério utilizado para cobrança de água e esgoto em imóveis sem hidrômetro instalado. A resposta foi que “o trabalho atual envolve o cadastramento de todos os imóveis da região, garantindo a formalização do serviço.” Questionamos como a cobrança antecede o serviço prestado e a que exatamente se refere a fatura, já que não há o serviço na região, mas não fomos respondidos.
Sobre a formalização do abastecimento do serviço em diversos outros pontos do bairro, a Águas do Rio limitou-se a responder apenas, sem oferecer qualquer previsão, que “atua na padronização das ligações de água no bairro Jardim Catarina, onde irá ampliar o sistema de abastecimento.” Especificamente, sobre a Ipuca, a concessionária ressalta que “para avançar com os serviços de distribuição na localidade da Ipuca, aguarda o início das obras de urbanização, quando será possível implantar, de forma integrada, os sistemas de água e esgoto.”
