Por Juliana Carvalhal
Edição 6 - Jornal Impresso O Catarinão
Todo mundo cresce admirando alguém. Seja na música ou na profissão que deseja seguir. Hoje, viemos te contar que aqui, no Jardim Catarina, temos a Gabriella Marinho. Mulher negra de 32 anos, jornalista de formação com especialização em Literaturas Africanas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e artista plástica com trabalhos reconhecidos no Brasil e no exterior, que merece reconhecimento aqui também.
Cria do Catarina, Gabriella é uma das homenageadas da série “Povo Preto de São Gonçalo”, do projeto Cidade Ilustrada, da Prefeitura de São Gonçalo. Ela também já participou do projeto como artista. Mesmo com reconhecimentos importantes, ela faz questão de reforçar de onde vem. “Eu sou nascida e criada aqui no Catarina. Minhas vivências sempre foram pelo bairro, pelas escolas daqui. Isso faz parte de quem eu sou”, conta.

Essa relação com o território aparece direto no trabalho artístico dela. Apesar de ser jornalista, com especialização em literaturas africanas e experiência em comunicação institucional e direitos humanos, Gabriella encontrou nas artes plásticas outra forma de contar histórias. A partir de pesquisas sobre literaturas africanas, especialmente de Angola e Moçambique, ela começou a perceber semelhanças entre os lugares descritos nos livros e o Catarina: o barro vermelho, o chão, os caminhos.
Quando entendi essa relação, passei a olhar para o Catarina de outra forma e a trazer isso para o meu trabalho,
A argila virou linguagem. Estudando cerâmica, Gabriella também se conectou com a história da humanidade, entendendo a cerâmica como uma das primeiras tecnologias de fixação dos povos. A partir daí, sua arte passou a falar de memória, pertencimento e identidade. Em obras como Agô, ela leva literalmente o território para dentro das exposições, usando barro retirado do Viaduto do Catarina, na rua 45, em 2019. “É como levar o bairro comigo, mesmo quando estou longe”, diz.

Seus trabalhos dialogam com temas como religiosidade, desigualdade social, identidade racial e território. Muitas peças se parecem com mapas, mas mapas afetivos, que ajudam a artista a se localizar em quem ela é. Gabriella também cataloga terras por onde passa e aplica esses materiais em telas, cerâmicas e instalações, transformando o chão em narrativa visual.
A transição do jornalismo para as artes não foi um rompimento, mas um deslocamento de linguagem. Durante a graduação, sua pesquisa já era sobre comunicação comunitária e jornalismo de território. “Antes eu falava disso com texto. Hoje, eu falo com escultura”, resume.
Gabriella já participou de exposições em museus, centros culturais, espaços como o SESC e também realizou residências artísticas no Brasil, na África e na América Latina. Ainda assim, cada convite segue sendo especial. “Nunca dá para normalizar. Cada reconhecimento é a confirmação de que o trabalho está sendo visto.” Criada por mulheres negras, Gabriella reconhece que sua trajetória é fruto da persistência dessas mulheres, que abriram caminhos para que ela pudesse escolher. “Eu sou um retrato fiel da perseverança delas”, afirma. Essa herança se reflete não só em sua arte, mas também no compromisso com a educação.
Desde sempre, Gabriella realiza oficinas de cerâmica em escolas públicas e espaços comunitários, muitas vezes por conta própria. Para ela, a arte precisa circular além dos museus. “As crianças do Catarina precisam ter acesso a isso também”, defende. Seu sonho é, um dia, oferecer um curso de cerâmica na Lona Cultural do bairro.
Enquanto aguarda políticas públicas e editais que viabilizem esses projetos em maior escala, Gabriella segue criando, compartilhando e alimentando um ciclo que transforma barro em memória, território em arte e vivência em linguagem.
Do Jardim Catarina para o mundo, Gabriella Marinho mostra que o chão de onde se vêm também pode ser matéria-prima para construir futuros.
