Resíduos sólidos amontoados num determinado local formam um lixão. Resíduos sólidos amontoados em diferentes locais, no plural, formam alguns lixões – e esse é o cenário atual de grande parte da Ipuca, sub-região do Jardim Catarina Velho.
O cheiro do valão não passa despercebido por quem tenta acessar a BR-101 pela Rua Expedicionário Moisés de Oliveira (59). Na gigantesca montanha de lixos que ainda existia ali há poucos dias atrás, encontrava-se de tudo: fraldas usadas, animais mortos, esmaltes, brinquedos, garrafas de bebidas e embalagens de todo o tipo. Resíduos sólidos misturavam-se com os resíduos líquidos do esgoto a céu aberto na última esquina da rua, bem na frente da casa de moradores que insistem em sonhar com uma Ipuca diferente, como é o caso do Seu Antônio e de seus vizinhos.

Esse era o revoltante cenário da Rua 59 antes do time de voluntários do Colabora Ipuca se reunirem em mutirões de limpeza, construindo no que antes eram lixões, duas novas lixeiras comunitárias. Inicialmente desenvolvidas pelo engenheiro Márcio Almeida e aprimorada pelas lideranças do Grupo Nova Ipuca, as lixeiras comunitárias são construídas em alvenaria e finalizadas com uma arte em grafite. Mais que pontos de descarte de resíduos: essas construções são um exemplo de tecnologia comunitária. (Veja no final dessa matéria o antes e depois dessa região)
“A Ipuca não pode mais esperar pelas promessas que nunca chegam.” Esse é o recado do projeto Colabora Ipuca, iniciativa desenvolvida pelo Grupo Nova Ipuca em parceria com Isabelly, Francisca e Jupiter – jovens lideranças da Rede Manas, uma Rede apoiada pelo Instituto Decodifica, que reúne ativistas de periferias da Região Metropolitana do Rio de Janeiro com o objetivo de criar caminhos que conectam justiça climática, produção cidadã de dados e incidência política.
Com o apoio de recursos fornecidos pela organização Hivos após a aprovação de um edital, as atividades do Colabora Ipuca envolveram a construção das duas novas lixeiras comunitárias na Rua 59, e de uma cartilha elaborada de forma coletiva com os próprios moradores da Ipuca durante uma oficina de cartografia socioambiental que contou com um mapeamento produzido pela própria comunidade.
Uma cartilha nascida da ausência de dados e de recursos
A partir de um processo coletivo, a cartilha busca registrar as principais violações de direitos socioambientais que afetam a vida dos moradores da Ipuca. Ao mesmo tempo, apresenta as soluções que nascem do próprio território diante da ausência de saneamento básico e do descaso da Prefeitura de São Gonçalo.

Hoje, São Gonçalo lidera ano após ano o ranking das 100 maiores cidades do país com o pior serviço de saneamento básico. De acordo com o Instituto Trata Brasil, em 2023, a cidade foi considerada a pior do estado do Rio de Janeiro no quesito saneamento básico, com apenas 15,49% do esgoto tratado.
Embora esses dados não sejam especificamente sobre o Jardim Catarina, sabemos que o bairro é um retrato fiel e empírico dos indicadores apresentados sobre São Gonçalo: na Ipuca, os lixões são crescentes, os valões permanecem e, quando chove, as ruas são tomadas pela lama. Sem políticas de adaptação climática, saneamento básico e educação ambiental, quem paga a conta mais cara são as pessoas que vivem no território.
Moradora da região há 27 anos, Adma Batista conta como os desafios do território impactam na sua vida
No ano passado, eu fui diagnosticada com câncer e quando voltei da cirurgia, fiquei com medo até de morrer. Porque como a gente sai de um lugar desse quando passa mal?
O que é e para que serve a cartilha?
A cartilha “Por uma nova Ipuca: caminhos para a justiça ambiental e climática no Jardim Catarina” reúne as principais violações socioambientais sentidas cotidianamente pelos moradores, e, além disso, busca registrar as soluções socioambientais que vêm sendo implementadas pelos moradores do território. Lançada na primeira semana de agosto, o material impresso já está na mão de parte dos moradores da Ipuca e também pode ser acessado digitalmente.
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O registro das experiências e a produção de dados sobre a Ipuca são formas de visibilizar as demandas e fortalecer a incidência política na busca da garantia dos direitos básicos e a construção do futuro tão sonhado, em diálogo com a luta pela justiça climática e o combate ao racismo ambiental. As lideranças do Colabora Ipuca e do Grupo Nova Ipuca desejam e lutam para que a cartilha seja uma nova porta para que os sonhos tornem-se realidade.
O maior milagre que conseguimos foi ressuscitar no coração dos moradores o que já estava morto
Acompanhe também a reportagem feita pelo Jornal O Catarinão no dia do lançamento da iniciativa
