Segunda-feira, 11 de maio de 2026 MPJ | Mais Pelo Jornalismo
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73 anos de história: parabéns, Jardim Catarina!

Dia de São Jorge e… do Jardim Catarina. Dia 23 de abril, dia que marca o nascimento do território

Colagem com fotos de elementos que representam o Jardim Catarina e sua história de 73 anos. Da esquerda para direita: ônibus com o letreiro do Jardim Catarina e uma pequena estátua de São Jorge e seu Cavalo, logo acima da foto, ainda da esquerda para direita uma foto da Lona Cultural, e de um grafite recortado com os dizeres Favela é. No meio das duas uma ilustração que faz referência as placas de rota escrito Jd. Catarina, O Catarinão.

Somos o bairro mais populoso de São Gonçalo e o maior loteamento da América Latina. Cheio de histórias que marcam nossa evolução (e também nossos atrasos), com participação determinante na economia e na história da cidade. Mesmo assim, a Prefeitura de São Gonçalo pouco sabe sobre nós. Não há arquivos históricos, não há registros organizados sobre a formação do bairro, num território que comumente é lembrado em época eleitoral pela alta densidade populacional.

Então, quem vai contar a nossa história? Quem vai contar que somos um território que produz cultura e conhecimento? Quem vai contar que o Jardim Catarina não vive num contexto intermitente de guerra e violência? A gente conta. Empenhados em resgatar a memória e identidade do Jardim Catarina, viemos te contar mais uma vez, mas desta vez com uma reportagem dedicada só para isso: dia 23 de abril é o aniversário do Jardim Catarina, que neste ano completa 73 anos de existência e resistência.

O início das vendas dos lotes no Jardim Catarina ocorreu em 23 de abril de 1953. De acordo com o livro E assim surge... Jardim Catarina, essa é considerada a data de aniversário do bairro que, na época, surgiu como o maior loteamento já criado na América Latina. A Fazenda Boa Vista do Laranjal, que deu origem ao loteamento, passou por uma fase de transição, não sendo transformada de imediato. Sendo assim, entre  a morte do proprietário Júlio Lima, em 1925, até a venda da fazenda pelos seus filhos herdeiros, em 1949, houve o declínio da produção de laranjas, devido à chegada do progresso e ao surgimento de polos industriais e comerciais durante a era Vargas.

Hoje, o Jardim Catarina possui moradores que podem ser considerados verdadeiras relíquias históricas. É o caso de dona Marlene, moradora da antiga Rua 5. Ela tem 79 anos de idade e nasceu em 1946, quatro anos antes de a fazenda ser vendida. Portanto, dona Marlene nasceu na fazenda, antes de se tornar loteamento, e viu o Jardim Catarina ao longo dos anos se tornar o que é hoje. Ela se recorda perfeitamente de seu avô, Hebenegildo Deodato de Oliveira, que foi funcionário da fazenda, um dos chamados foreiros, trabalhadores que viviam e cuidavam da propriedade. "Meu avô plantava arroz, feijão, criava boi, porco e galinha. Vendia tudo na feira de Alcântara."

Dona Marlene acompanhou o crescimento do Jardim Catarina | Foto: Eduardo Navarro

Essa fase a que dona Marlene se refere corresponde às últimas décadas da fazenda, quando os antigos foreiros tiravam seu sustento por meio da produção independente. O esvaziamento da zona rural, o surgimento de polos industriais e o crescimento urbano e populacional fizeram com que a fazenda perdesse seu poder econômico na produção de laranjas e ficasse praticamente nas mãos dos antigos foreiros, até a sua venda.

Marlene é uma daquelas moradoras que vivenciou todas as transições anteriores do Jardim Catarina até os dias de hoje. De acordo com a moradora, o que era ‘brejo”, hoje é asfalto. O que era plantação de laranja e depois virou um pedaço de lote, tornou-se lar que hoje reside toda a sua família. Filhas de Marlene, Val Oliveira e sua irmã Lene Tigresa, tiram desse lugar, que um dia foi um pedaço de terra, seu próprio sustento com o salão de beleza.

Dona Marlene e sua família relembram infância no Jardim Catarina e torcem para que o bairro continue se desenvolvendo | Foto: Eduardo Navarro

Para quem viu o Jardim Catarina nascer e crescer, Marlene reconhece a evolução do bairro. “Antigamente não tinha nada, né? Agora tá melhorando 100%. E vai melhorar mais ainda, né?”, conta esperançosa.

"Meu avô adquiriu quatro lotes e deixou tudo para os netos." Assim como dona Marlene, os netos do senhor Hebenegildo são, hoje, verdadeiras fontes históricas, que guardam consigo evidências valiosas da fazenda que deu origem ao Jardim Catarina.

Loteamento, bairro, favela ou periferia? Entendendo os nomes que marcam nosso território

Com base nas pesquisas e história que marcam o Jardim Catarina, costumamos dizer que: Nascemos como loteamento, nos desenvolvemos como favela e nos consagramos como bairro. Agora, a pergunta que fica é: um termo exclui o outro para nos definir? É possível definir todo o Jardim Catarina com uma única nomenclatura? Para explicar, convidamos a geógrafa Ludmylla Gonçalves.

“O Jardim Catarina pode ser compreendido como um loteamento, pois sua forma de ocupação ocorreu por meio do parcelamento do solo urbano. Ou seja, a área foi dividida em lotes, adquiridos ou ocupados por diferentes famílias, que construíram suas moradias. A partir desse processo, consolidou-se o que hoje conhecemos como o bairro Jardim Catarina. Ao mesmo tempo, é possível classificá-lo como bairro, já que possui limites reconhecidos tanto pela população quanto pelo poder público municipal. O fato de sua origem estar associada ao loteamento não invalida essa definição. Pelo contrário: um bairro pode englobar diversas formas de ocupação do espaço, como loteamentos, conjuntos habitacionais e até favelas.”

A geógrafa também explica o que define uma favela. No imaginário popular, o termo costuma ser associado a morros, casas sobrepostas, becos e vielas. Mas, segundo ela, a classificação de um território como favela está menos ligada a esse cenário físico e mais às condições de vida, à forma de ocupação e à presença (ou ausência) de serviços públicos.

“Tradicionalmente, o imaginário sobre favelas está associado a ocupações em encostas, com moradias muito adensadas. No caso do Jardim Catarina, por se tratar de uma área plana e originada a partir de um loteamento, há uma percepção inicial de maior organização espacial, o que pode levar à ideia de que não se trata de uma favela. Ainda assim, a realidade evidencia o contrário. A insuficiência de serviços públicos essenciais — sobretudo transporte e saneamento básico —, somada à presença de dinâmicas como o controle territorial por poderes paralelos e à oferta de serviços como internet, são elementos que caracterizam o território como uma favela. Dessa forma, o Jardim Catarina pode ser entendido como um loteamento que se consolidou como bairro e que é reconhecido, pelas suas condições socioespaciais, como uma favela.”

Ainda sobre o conceito de periferia, Gonçalves destaca que o termo está relacionado não apenas às condições de acesso a serviços, mas também à distância em relação aos chamados “grandes centros”.

“Em relação à periferia, trata-se de um conceito associado às áreas mais distantes dos grandes centros metropolitanos, onde se concentram fluxos de pessoas, capitais, mercadorias e informações. Nesse sentido, o município de São Gonçalo ocupa uma posição periférica em relação à cidade do Rio de Janeiro. Essa relação é tão presente no cotidiano que moradores mais antigos ainda utilizam a expressão ‘ir à cidade’ para se referir ao deslocamento até o Rio. É importante destacar que a relação centro-periferia ocorre em diferentes escalas. São Gonçalo, como um todo, é periférico em relação ao Rio de Janeiro. Internamente, o Jardim Catarina também ocupa uma posição periférica quando comparado a áreas como Alcântara, que apresenta maior oferta de transporte e serviços, além de maior centralidade urbana.”

Voltando às perguntas do início do trecho desse bloco, Ludmylla não deixa dúvidas ao afirmar que “o Jardim Catarina é, simultaneamente, loteamento, bairro, favela e periferia — e que essas definições coexistem na compreensão geográfica do território”.

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